03 Jun
44 anos e 45 anos - A estrela sobe ao céu e a Fênix renasce...- Parte I

Uma das decisões mais difíceis da minha vida foi mandar meu pai para uma instituição de saúde especializada. No dia em que deixei ele lá, parecia que uma parte de mim tinha ficado para trás.. Eu sentia que eu estava abandonando uma das pessoas que eu mais amava em minha vida. Chorei por três dias... me perguntava o tempo todo se eu estava fazendo o que era certo, pois se desse errado, ele poderia morrer. 

Eu ia na clínica quase todo dia, pois era perto de meu trabalho. Controlava todos os remédios dia a dia, ligava quase sempre... enfim, tentava compensar a ida dele para um lugar sem família. No princípio, foi difícil, mas, com o tempo, ele foi ganhando peso, fazendo novos amigos e se adaptando... ele era muito forte... claro, tomei sustos algumas vezes com ele, principalmente em um sábado, quando ele teve uma convulsão na minha frente... quase morri... pensei que tinha perdido ele, além de minha mãe... felizmente foi um susto... 

Paralelamente a isso, minha estrelinha foi ficando cada vez mais doente... pneumonia, dengue... cada vez mais fraca.. minha estrelinha estava ficando cada vez menos brilhante. Várias noites sem dormir, às vezes eu ficava na porta do quarto dela, vendo minha querida esposa e ela dormindo... eu rezava a Deus para que ela melhorasse.. Como eu amava aquela estrelinha... Apesar de tudo, eu tinha que trabalhar, pagar contas, pagar remédios, enfim, sobreviver... 

Então, com a situação de saúde da estrelinha piorando, ela foi internada em um hospital infantil. Ao longo do processo, descobrimos que a condição da coluna dela estava crítica, visto a perda de resistência causada pelas doenças... e ela piorou mais... E um dia de sábado, não entendendo o que estava acontecendo com minha filha, fui para a porta da UTI e disse que de lá não saia até saber o que estava acontecendo... foi então que descobri que ela estava indo por um caminho já traçado a tempos, mas que não sabíamos... o problema da coluna dela era mortal, caso as cirurgias não conseguissem atingir um determinado padrão de descompressão da medula pela coluna dela. 

Minha esposa estava há mais de 30 dias no hospital, exausta, mas guerreira.. não deixava a estrelinha por um minuto... estávamos próximos do meio do ano... em uma quinta-feira, sai do trabalho e fui para o hospital depois das 22:00 horas... fiquei até quase uma hora da manhã... minha esposa estava dormindo, no limite de suas forças... minha estrelinha respirando com muita dificuldade... no caminho, quando estava próximo de casa, uma voz me disse... Sua filha irá embora... Senti aquela sensação de tristeza e pavor... voltei para o hospital.. fiquei por lá até duas horas da manhã.. ficava olhando a respiração da estrelinha e os aparelhos... a situação estava muito dramática.

Levantei cedo para sair para o trabalho e minha esposa estava lá em casa para tomar banho... achei até estranho, mas ela me disse que minha sogra havia ficado com a estrelinha. Fui trabalhar... eu tinha uma reunião em um centro de formação técnica, no qual iríamos, eu e um colega, apresentar uma proposta de pós-graduação. Estávamos conversando com a diretora do centro, quando um dos funcionários me disse que meu telefone não parava de tocar... Pedi licença e fui para o corredor ver do que se tratava... era minha querida esposa ligando... 29 ligações.. Minha alma gelou... pensei na voz da madrugada... mas, me controlei.. peguei um copo d'água, comecei a tomar... então liguei...

Foi então que uma voz desconhecida atendeu... me disse que era psicóloga do hospital... pediu para que eu deslocasse para lá.. logo, perguntei Minha estrelinha se foi, não é? Ela disse... sim, infelizmente sua estrelinha se foi. Naquele momento, minha vida desabou... meu chão se abriu.. o copo de água foi para o chão... dei um grito..Nãoooo!! E comecei a chorar... não sei como, mas várias pessoas vieram ao meu auxílio e perguntando o que havia acontecido... eu apenas dizia que minha filha havia partido... Jamais vou esquecer este momento.. o mais terrível de toda a miha vida... Aquele anjo de luz, minha querida estrelinha, havia apagado a sua luz... na mesma hora, não pude deixar de pensar em tudo que passamos e que trabalhamos.. as horas que deixei de passar com ela e minha esposa para trabalhar e dar a eles conforto... não pude deixar de pensar de que valeu aquilo tudo... achei que seríamos premiados com um milagre... minha filha conosco durante nossas vidas... como éramos egoístas... este não era o caminho dela...

A vida é um rio de almas que flui... uma alma se eleva, outra se desce, fluindo as indas e vindas da vida... um dia lá, outro aqui... difícil descrever a ascenção da estrelinha... parecia que o rio não fluia mais... tinha parado e perdido sua força... tudo se escureceu...

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