
No começo, era só eu, criado por pais preocupados com a vida. Caminhei pelo caminho sendo guiado pelas pedras.. família, consciência e vida. Aos poucos, o rio foi fluindo um pouco tímido em seu fluxo, diferente em sua forma, mas cheio de vida.
Nunca fui um visionário, fui um aprendiz, elaborando aos poucos a receita da vida. Ao longo da minha infância e juventude, sempre me vi como um retrato distorcido esquecido pelo sexo oposto e lembrado pelos amigos. Várias foram as formas e retratos em que os sentimentos fluíram.
Aos poucos fui descobrindo um dom, no qual pude sentir a alma das pessoas, vi o futuro e o passado, vi tristeza e alegria. E assim, no encontro de almas, em pouco tempo, o âmago da alma soube que compartilhava sua luz comigo. A princípio, acabava sendo visto apenas como um amigo, uma alma que dá as mãos, mas, como em qualquer troca, quanto mais eu me aprofundava na alma, dependendo do gênero, mais eu aprendia e mais eu assustava.
O amor era inevitável, pois quanto mais você conhece a sua alma e a do outro, maior é o sentimento e o rio corre...
A reação foi inesperada, assustadora foi a sensação de impotência ao descobrir que eu, o caminhante, sabia mais sobre a outra alma do que ela. Assim, as almas se afastaram por medo, por falta de conhecimento... e assim, ninguém me via como um ser humano carente de amor e com muito a revelar.
À medida que minha juventude passava, eu me sentia cada vez mais como uma ostra, que precisava ser aberta para revelar seu tesouro. Acabei me sentindo um ser inútil, invisível à luz e aos olhos dos outros. Fui assombrado por pensamentos de inferioridade ao longo dos anos, pois procurava alguém com quem compartilhar meus sentimentos e pensamentos, mas a névoa do estereótipo da sociedade impedia que alguém descobrisse o que eu tinha a oferecer.
Até que um dia, em uma viagem, encontrei duas almas, que me viam como eu era e não no espelho, voltei a me sentir um rio que corre e consegui romper a armadura e descobrir que eu era um ser humano com valor. ... que o que eu tinha poderia ser compartilhado com bondade, carinho, humildade e coração aberto.
Fui líder, fiz novos amigos, descobri o caminho da liderança, percebi que era admirado, almas aproximadas e pensei que poderia brilhar como o sol e finalmente poder amar alguém e ser amado por quem eu era.
Que ilusão... quando saí da liderança, os "amigos" se foram, voltei a ficar invisível e o choque estremeceu a minha alma. Vi que, neste mundo, os puros são açoitados, que a caridade não era valorizada e que a verdadeira amizade era para poucos. Para o sexo oposto, quando havia química, eu era um furacão, em que a alma era um livro aberto, em pouco tempo, preenchi aquela alma e descobri seus segredos... ela era vulnerável por saber que daria a ela tudo e que não poderia haver segredos... Várias vezes, pude sentir meu coração bater e o medo aumentar.
E, na juventude, não pude ser apreciado por ninguém, pois eu era a aberração que fugia dos padrões da sociedade, não era o estereótipo que queriam, apesar de ser atleta, vencer batalhas, porém, invisíveis.
Eu nem sei explicar o sofrimento que eu tinha dentro do meu coração... um coração sedento de amor e de olhos lindos que pudessem sentir o que eu sentia... carinho puro e amor incondicional... eu era um pássaro "livre" engaiolado por um estereótipo.. Eu era feio por fora, mas talvez, para alguém, bonito por dentro.
Assim foram meus primeiros 18 anos.... fluindo como um rio com forte correnteza, muitos obstáculos, muitos desafios, poucas recompensas... Eu procurava um espaço plano e aberto para fluir para outros lugares, outras encruzilhadas.. ..