04 Jun
44 anos e 45 anos - A estrela sobe ao céu e a Fênix renasce...- Parte II

Minha estrelinha tinha partido... meu mundo estava para mudar novamente... quando cheguei ao hospital, uma última e difícil missão...teria que entrar no CTI e ver minha filha sem vida... impensável, mas necessário... tive que ver minha filha lá... jazendo em cima de uma cama... levei anos para assimilar esta visão... meu coração estava ferido e doendo... tudo o que eu queria era sair dali...

Depois de sair de lá, vi que minha missão naquele dia nem tinha começado... teria que providenciar os tramites legais para o funeral... procurar a funerária e o escolher um caixão... minha querida esposa não tinha forças para isso, acho que nem eu tinha, mas precisava ser feito. Entrei em contato com a funerária, marquei o horário para buscar a estrelinha e, então, fui para o cartório com os papéis que comprovavam o apagar de minha estrelinha... Que momento desesperador para um pai... eu parecia um corpo sem alma... que não entendia o que estava acontecendo... sendo levado pela correnteza da vida... mais uma vez, sofria pela perda de uma das almas mais preciosas em minha vida... a minha estrelinha. Como era ela bela! Lembro-me do seu sorriso e de sua luz..

Fui, então, a funerária para escolher o caixão... o fato de uma criança morrer é tão raro que só tinha um modelo de caixão para escolher... todo branco e dourado... Fiquei pensando na minha querida esposa... será que ela iria gostar do caixão... orei para que sim... Logo eu, odiava cemitério e enterros, tinha tido a missão de enterrar minha querida mãe e minha querida filha.. que ironia... que lição de vida... Depois disso, comecei a ver o cemitério de outra forma... é naquele lugar que presto minhas homenagens àqueles que mais amei na vida... por incrível que pareça, para mim, hoje, é um lugar de paz, amor e respeito!!

Logo, lembrei-me de uma das missões mais difíceis para mim... teria que contar a meu pai que a sua neta, aquela que ele levava toda a sexta-feira para a fisioterapia e fonoaudióloga durante anos, havia falecido. Não tinha 09 meses que ele tinha perdido minha querida mãe.. como eu iria dizer isso a ele? Ele amava muito a estrelinha!! Como eu poderia dar esta notícia para ele? Eu não teria forças para dizer isso a ele... então, minha cunhada se apresentou para me ajudar... eu agradeci muito... meu coração estava partido..

Então, para minha surpresa, ele aceitou até bem para a situação. assim, veio o velório... tínhamos que escolher em ficar a noite inteira lá ou começar na manhã seguinte... minha querida esposa então me disse que queria passar a noite com a estrelinha... ela não iria deixar a filha sozinha, nunca... Argumentei com ela que seria sofrido, mas não adiantou... queria sumir da face da terra... tirar aquela dor de dentro de minha alma...mas, eu tinha que ser forte para minha esposa, meu pai, meus amigos... todos estavam sofrendo e tristes...

Ficamos lá durante a noite... minha esposa não saia do lado do caixão.. pedi a ela que fosse descansar, mas ela não quis. Familiares e vários amigos e amigas me deram a mão durante o dia... Um grande amigo meu, um irmão de coração e de alma, ficou comigo lá a noite toda me dando força... então mais um dia nasceu, só que desta vez, nasceu mais triste e mais escuro... não tinha como eu ver a luz naquele dia.. estava sem esperança e com a minha alma ferida..

Logo, vários amigos, uma amiga querida praticamente uma irmã, familiares e profissionais que cuidavam da estrelinha apareceram para prestar suas homenagens. A faculdade que eu trabalhava mandou uma coroa de rosas, amigos muito queridos também... Até hoje, não sei como consegui ficar de pé, respirar, viver... Eu gostaria de esquecer aquele dia e fingir que ele não existiu. Mas, a vida nos dá lições em cada suspiro e em cada esquina.. não podemos fugir do caminho que temos que percorrer... veio o padre orar pela alma de minha filha... escutei suas palavras, mas meu coração estava sangrando muito..

Assim, antes de minha filha ir para o seu lugar de descanso, agradeci a todos que estavam presentes, por tudo que fizeram pela estrelinha, pelo amor, pelo carinho e pela luz que davam a ela... eu era muito grato a todos que estavam lá, pois de uma forma ou de outra, participaram e contribuíram para a vida dela. Meu pai estava lá ao meu lado, sofrendo também, mas me dando muita força.. não posso deixar de agradecer por ele ter estado lá.. ele sempre foi minha rocha, meu exemplo...

Então, veio a hora mais escura, foi fechado o caixão da estrelinha.. nunca mais a veríamos mais.. como isso era difícil de aceitar para um pai e uma mãe amorosos e orgulhosos da filha querida. Chegamos ao lugar do enterro, minha querida esposa pediu para abrir a portinhola para ver a nossa filha por uma última vez... entrou em desespero tanto ela, como eu... ali foi uma parte de meu coração, uma parte de minha alma mais radiante...Assim, chegava ao fim nossa missão de cuidar da estrelinha. Até hoje me pergunto se fui o pai que ela merecia... sei que fiz o que pude, mas não sei se fiz por merecer aquela alma tão pura.

Minha querida esposa fez tudo o que podia... que mãe e que força!! Até hoje ela acha que poderia ter feito mais.. eu entendo.. queríamos ela aqui.. nossa parte mais egoísta...e assim, a escuridão cobriu o caixão e, certamente, uma estrelinha chegou na imensidão da luz de Deus...

Terminou então aqueles dois dias... e a vida continua e o sol nasce novamente...

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