18 May
Entre 29 e 33 anos - As pedras pelo caminho...

Quando a minha bolsa de estudo para o Doutorado saiu, tirei um peso de minha alma. Estava casado, não tinha renda... vivia de economias.. fiquei pensando a loucura que estávamos fazendo, eu e minha esposa. Ela tinha uma carreira consolidada e eu tirando as pedras do camimho. Nunca havia me imaginado com mestrado e PhD. O ovelha negra da família ia fazer PhD... irônico, mas fruto de muito trabalho estudo e foco.

Como seria agora? Recém casado, acabado de montar o apartamento, vivendo de bolsa e tendo que morar em outro estado. Fiquei pensando na minha mulher... sempre ao meu lado e sempre incentivando. Iria ficar sozinha por alguns períodos para que eu pudesse fazer os créditos necessárias (disciplinas), além da pesquisa e tese, para terminar meu PhD. Pelo menos ela tinha um companheiro fiel que estava sempre presente enquanto estava fora... um cão chamado "badaró"... nem pergunte o porque do nome.. mas era um companheiro e tanto para ela. 

Consegui, inicialmente, ficar na minha cidade enquanto fazia as disciplinas. Até em feriado nacional eu tinha disciplina para fazer e minha esposa comigo. Assim foram quase dois anos de PhD. No final do segundo ano, tive que me mudar. Comprei uma camionete pequena e me mudei. Tinha que fazer o trabalho de campo para obter as informações necessárias para minha tese. Trabalhei com análise de risco de inundações. No meio do terceiro ano, ganhei um kinder ovo com surpresa.. o meu co-orientador do PhD desistiu por motivos pessoais e uma parte importante da pesquisa seria orientada por ele. O meu primeiro pensamento foi que ue estava em um rio, dentro de um barco, na correnteza e perdi o rumo... não sabia o que pensar. Eu tinha um orientador muito bom, um pesquisador excelente e um amigo. Entretanto, ele me disse que eu teria que me virar para terminar a pesquisa, visto que o conhecimento que faltava não era domínio dele. Eu tinha uma bolsa de estudos de um órgao de fomento a pesquisa muito sério. Todo ano, eu tinha que mandar um relatório com o que foi feito e os progressos que tinha feito. Como seria este relatório agora? E a minha pesquisa? Minha bolsa? Como eu ia fazer? A primeira coisa que fiz foi fazer todo o meu trabalho de campo. De posse dos resultados, comecei a desenvolver os resultados. Mas ainda tinha a parte do co-orientador... como eu iria fazer? 

Comecei a orar a Deus.. pedi iluminação, pois se não conseguisse renovar a bolsa, teria que voltar para casa e desistir de tudo. Numa sexta-feira, lendo alguns artigos científicos, encontrei o que poderia ser uma luz... uma ideia que poderia resolver o meu problema.. mas, precisava pensar como justificá-la.. uma tese na minha área se baseia em fatos. Então, analisando a legislação do meu país, a saída se apresentou. Mostrei ao meu orientador, expliquei a ideia e ele me deu sinal verde. Não tinhamos saída. Usei a ideia, mandei o relatório... dois meses de espera do resultado e muito trabalho de campo. Veio janeiro do ano seguinte e chegou a resposta. Sucesso!! 

Na mesma hora, me senti aquele estivador que carregara uma tonelada nas costas e, no final do trabalho, tinha conseguido atingir o seu objetivo. Fiquei imaginando um cara alto, barbudo, fortão indo para o bar tomar uma coca-cola.. comecei a rir de mim mesmo. Liguei para minha esposa e para os meus pais... eu terminaria meu PhD.  Valeu os dias sem dormir, mas ainda tinha que escrever boa parte de minha tese... trabalho duro pela frente. 

Passados vários percauços, chegou o dia da defesa de minha tese.. cinco professores especialistas e eu... minha mãe, meu pai e minha esposa na platéia. Durante a apresentação e defesa, senti como se estivesse em um ringue, como o Rocky Balboa, apanhando. Cinco horas de arguição e, então, a banca de professores, me pediu para sair.  Minha mãe tinha saído da sala, pois estava muito nervosa.

De repente, me chamaram de volta. Meu orientador começou falando que era uma pena todo o meu trabalho, pois não havia dado para ser aprovado.. Naquele instante, eu me senti como se o mundo tivese acabado e só tinha sobrado eu. Por alguns segundos, pensei em todo o caminho até ali, os sacríficos e as pedras pelo caminho.. eu queria sumir.

Foi então que o engraçadinho e os outros professores disseram que era brincadeira.. me disseram que eu havia sido aprovado e com honra. Meu coração quase subiu pela boca... todo aquele peso armazenado por 04 anos havia sumido. Agradeci a Deus naquele momento.

Sempre fui grato pelo caminho que trilhei na vida.. fiz muitos amigos durante estes anos de mestrado e Phd. Sou muito grato ao meu orientador de PhD, pois ele é meu segundo pai e um homem formidável. Somos amigos até hoje. Tenho orgulho disso.

Quanto a minha esposa, dediquei meu PhD a ela. Sempre junto, sempre no meu coração.

Meses depois, após meu retorno a minha terra natal, com um PhD na mão, mal eu sabia o que estava me esperando.... 

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