22 May
Entre 35 e 37 anos - A Primeira Lição - Parte II

Na busca pelas respostas, mal poderíamos imaginar o que encontraríamos. Fomos recomendados a procurar um neurologista especialista em crianças, o qual era professor na Faculdade de Medicina da Universidade de minha terra natal. Ele era um excelente médico clínico. Solicitou exames e pediu celeridade. Ficamos apreensivos e muito preocupados. No retorno com os exames, um tsunami nos tingiu em cheio... o resultado era desafiador e desesperador... a estrelinha tinha uma deficiência na coluna, a qual estava comprimindo a sua medula, o que explicava a falta de marcha, a dificuldade de fala, entre outras coisas. O médico foi categórico em dizer que deveríamos procurar um neurocirurgião urgentemente, pois minha estrelinha tinha que ser operada imediatamente sob risco de poder falecer a qualquer momento. A medula estava muito comprimida. Recomendou o uso de um colete e muito cuidado com a estrelinha.

Isso foi no final de novembro, início de dezembro daquele ano. Parecia que estávamos indo dentro de um bote correnteza abaixo sem nenhum controle... batia de cá, batia de lá e nós nos segurando como podíamos. O médico nos recomendou um médico neurocirurgião. Fomos a ele com o caso dela, exames, documentos... o médico se desculpou e disse que não tinha experiência em operações com crianças muito pequenas (no caso, dois anos). Indicou outro... fomos a ele, o qual indicou outro. Estávamos desolados, parecia que estávamos condenados... nenhum médico queria pegar o caso, a vida de minha filha estava por um fio.

Não dormíamos direito... passei várias noites procurando na internet, nos catálogos de médicos, enfim, em tudo. E o tempo passando e parecia sem solução... pedia a Deus sua luz, sua força e sua misericórdia... Foi então que minha esposa descobriu um médico neurocirurgião muito conceituado e que talvez aceitasse nosso caso. Fomos até ele... mostramos todos os exames e documentos, expressei meu desespero dizendo que estávamos ficando sem esperança... tínhamos sido rejeitados várias vezes. Perguntei para ele com medo da resposta: "Doutor, o senhor pode operar a minha filha? E ele respondeu sim, mas preciso conversar com minha equipe. Naquele momento, quase me belisquei para ver se não estava sonhando... aquele ser humano estava dando a mim, a minha esposa e a minha estrelinha, uma esperança, uma luz no fim do túnel... tive vontade de abraça-lo e dizer... Abençoado seja o senhor!! Não tenho como agradecer... havia luz novamente para nós.

Então, recomendou vários cuidados com a estrelinha, o uso constante do colete para sua proteção e nos pediu para retornar no início de janeiro... era 17 de dezembro. Nem preciso dizer que o natal daquele ano foi muito triste e sombrio... no entanto, meu coração me dizia que havia esperança e que o sol nasceria novamente. Minha esposa estava muito triste e receosa, mas também acreditava na iluminação da graça de Deus. Assim, terminamos o ano como uma família a espera de um milagre. Minha estrelinha tinha apenas 2 anos e 4 meses.

No início de janeiro, nos encontramos com o médico e sua equipe e a cirurgia da estrelinha ficou marcada para o início de fevereiro. Fiquei esperançoso e com medo ao mesmo tempo... havia um médico na equipe que havia feito uma operação parecida na Inglaterra e ele ajudou no seu planejamento.

E chegou o dia da operação... entramos de madrugada no hospital. O dia começou com nossa despedida de nossa estrelinha... não sabíamos se a veríamos sorrindo de novo.. era uma operação de extremos risco... nem quisemos saber o risco dela... Tinha que ser feito! A estrelinha entrou no bloco cirúrgico e ficamos no lounge esperando notícias... minha esposa e eu orando o tempo todo... não consegui ficar parado lá... desci para a rua, andei, andei... voltei ao hospital, tempos depois fui a lanchonete, uma hora, duas, três, quatro horas... nenhuma notícia... meu coração estava em frangalhos.. minha alma estava imersa em pensamentos de esperança e às vezes de pânico... peguei o telefone e tentei com contato com o bloco cirúrgico e a resposta foi que a operação estava em andamento... às vezes o celular tocava e meu corpo estremecia de medo... seria uma notícia ruim... seis, sete, oito horas... então, saiu o médico a roupa cirúrgica e disse "a operação acabou, correu tudo bem...", vocês podem vê-la daqui a pouco... Aquele foi um dos momentos mais marcantes de toda a minha vida... eu não sabia se chorava ou se ria... queria vê-la... queria olhar para ela... então entramos no bloco... vimos ela na maca, quando olhou para mim e começou a resmungar e a reclamar gesticulando... olhei para minha esposa e disse "Ela está bem.. olha ela reclamando... ela está bem" e a abracei fortemente. Naquele momento, se fosse um farol, eu iluminaria o mundo inteiro de tanta felicidade.

Lógico, eu sabia que a estrada tinha apenas começado, viriam outros desafios durante o pós-operatório, mas a minha estrelinha estava viva!!

Aquela foi a minha primeira lição da vida sobre o que é um ser humano. Eu vi que a vida poderia ser frágil e por isso deveria ser preservada. Eu devia a vida de minha estrelinha para pessoas desconhecidas, mas que fizeram por ela o que eu não poderia... quanta gratidão. Eu vi que eu era um pingo de água no oceano e que minha vida, a da estrelinha, a de todas as pessoas são preciosas. Eu compreendi que eu não era nada além de mais um caminhante neste mundo e que não era melhor ou pior que ninguém.. deveria sempre ser humilde e grato por tudo.

Daquele dia em diante, uma voz que sempre existiu dentro de mim se sobressaiu... eu tinha que ser alguém com valor para merecer tanta bondade... tinha que tentar fazer mais pelas pessoas, não importa quais... caridade...

Tudo isso eu aprendi com a estrelinha.. ela estava viva e eu estava celebrando a vida e lembrando das demais almas deste mundo... obrigado vida, obrigado Deus, obrigado desconhecido ou desconhecida.... o que eu recebi, eu tinha que tentar distribuir, pois foi muito... tinha que tentar ser melhor a cada dia.

Não posso deixar de comentar que a nossa estratégia para suportar todas as pedras no caminho foi viver um dia de cada vez... hoje o dia foi bom, vamos fazer de amanhã também um dia muito bom. Vamos caminhar dia a dia e viver o presente somente...

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