
A viagem para Paris foi um divisor de águas para mim.. eu sempre achava que viajar era um investimento duvidoso.. como eu estava errado.. O ano começou com muiito trabalho e realizações.... Propus uma pesquisa relacionada a Resíduos Sólidos Urbanos para um órgão de fomento público e consegui os recursos. Por mais de dois anos, fiz várias incursões na minha cidade natal para avaliar o uso dos resíduos sólidos urbanos como potencial gerador de energia a partir de seu poder calorífico. As incursões eram lideradas por mim, que era o motorista da camionete, com GPS e uma turma muito envolvida e competente. Fiquei muito feliz com esta fase de minha vida. Comcomitante a isso, minha carreira acadêmica estava indo muito bem.. dava aulas na minha área, era convidado a dar aulas em outros cursos.. estava conseguindo os recursos que precisava para dar o que a estrelinha precisava e, ao mesmo tempo, me sentia útil e feliz... apesar de ter percalços com a estrelinha.
Ela chegara na época de sair da escolinha... tínhamos que achar uma escola para ela... esta foi a segunda lição. Nunca, em toda a vida da estrelinha, alguém teve algum preconceito com ela, pois todos viam o amor que tínhamos por ela e sempre a tratamos como uma criança normal, dentro do possível. Entretanto, a realidade pode ser bem diferente, quando você sai da esfera da crianças especiais. Começamos a procurar escolas particulares de nome para colocar a estrelinha. Na primeira que fomos, dita inclusiva, com filosofia ligada a logosofia, fomos conversar com a diretora da escola.. avaliando a infraestrutura da escola, era uma escola preparada para crianças com problemas de locomoção. Conversamos com professores.. Nos mostraram a escola toda, mas disseram que iriam avaliar o nosso pedido... estamos esperando a resposta até hoje... não a queriam lá.
Em outra muito famosa, fomos verificar a possibilidade e fomos informados que eles a aceitariam, mas que teríamos que arrumar uma pessoa para ficar com ela durante as aulas e, no caso de falta dela, a estrelinha não poderia entrar na escola... AInda tínhamos que aceitar isso por escrito!! Comecei a perceber que a inclusão, na maioria das escolas, era apenas obrigação legal. Fomos em várias escolas, cada uma dava uma desculpa para não aceitar ou simplemente reconehciam que não estavam preparadas para atender crianças especiais. Procuramos escolas para crianças especiais, mas minha amada esposa não quis, pois achava que seria importante a estrelinha conviver com crianças normais. Até que fomos a escola que minha esposa estudou o ensino médio. Aceitaram a estrelinha, mas eles iriam contratar uma pessoa e nós teríamos que pagar o salário dela.
Por insistência de minha esposa, que queria um ensino melhor para nossa filha, eu a coloquei lá. A rotina da estrelinha era uma loucura.. minha esposa acordava 05:30 da manhã, dava banho na estrelinha, a arrumava e ia com ela até a escola. Lá, ela estudava até às 11:45 e chegava em casa por volta das 12:30. Eu chegava do trabalho, pois trabalhava, em função da condição da estrelinha, meio horário, mais ou menos neste horário, almoçava e saíamos para a estrelinha fazer fisioterapia, fonoaudióloga e terapia ocupacional. Chegávamos por volta das 17:00 e, então, eu ia para a Faculdade trabalhar. Minha esposa ficava fazendo o dever de casa junto com a estrelinha. A nossa rotina era essa, mês após mês. Eu dizia a minha esposa que a rotina era muito pesada para minha filha... que deveríamos repensar.. A escola queria que minha estrelinha acompanhasse a turma... Fiquei indignado.. coomo isso se daria? Minha estrelinha era muito inteligente, mas suas limitações físicas impediam seu progresso.. continuei a argumentar com minha esposa que aquele esforço era demais para ela... então veio outra lição da vida... minha estrelinha estava brilhando menos, ficando mais lenta, mais cansada... ela não estava conseguindo ficar sentada sem tombar para o lado... eu, ali, vendo aquilo, sem poder fazer nada... me senti perdido e com medo... com certeza alguma coisa grave estava acontecendo...
Fomos ao neurologista, fizemos vários exames com a estrelinha... então veio outro pesadelo... ela teria que operar novamente, mas desta vez, poderia ser utlizado novos recursos e colocar placas, pinos e parafusos... eu não acreditei naquilo... tanto esforço para mantê-la bem e tudo tinha desmoronado.. Cheguei a discutir com minha esposa e até a culpá-la por isso.. aquela insistência de fazer a estrelinha ser o que ela não poderia ser ou poderia ser mais a frente, quando estivesse mais forte... forçando até o limite... Hoje vejo que era muito amor e dedicação para dotá-la de maiores recursos para enfretar a vida... mas ela não conseguia ver que estava indo além daquilo que era aceitável. Sempre ficávamos preocupados com o que aconteceria com ela quando não estivéssemos mais aqui... isso me passava pela cabeça quase todos os dias. Assim, fomos para mais um novo desafio...