26 May
Entre 39 e 42 anos - A Segunda Lição - Parte II

Mais um novo desafio... eu não estava acreditando que isso estava acontecendo de novo... minha filha novamente em uma operação de vida ou morte... a medula estava sendo comprimida novamente... Estava desolado, apreensivo e com medo... a sensação de perder minha filha era insuportável.. eu, com tantos sacrifícios, tendo que trabalhar e não conviver com a estrelinha o tanto que eu queria para poder dar a ela condições de ir além... era difícil para mim e ainda o é até hoje... Eu sei racionalmente que eu não tinha escolha.. mas eu sempre fui um filho, pai, ser humano de família... Nem consigo descrever a sensação quando tive que ouvir que voltamos a estaca zero... depois de tanto esforço... tive aquela sensação de querer sumir... desaparecer... Bem, mas ela precisava de mim forte, minha mulher também precisava de mim... Assim, me reergui novamente... eu tinha que ser forte por minha família... Ninguém sabia ou sabe, mas naquela época, olhando de hoje, nem sei como consegui...

Então fomos para o mesmo hospital, na mesma sala de espera... desta vez, foram 10 horas de espera... neste tempo, tentava pensar positivo, tentava lembrar da visão do rosto de minha estrelinha sorrindo, tentava distrair minha mente e meu coração.. minha querida esposa estava tensa, chorava e orava o tempo todo... ao escrever estas palavras agora, sinto que estava buscando um caminho para sobreviver àquilo. Não sabia mais o quanto eu ainda seria testado ao longo da minha vida... mas aquele teste, foi um dos maiores de minha vida... você pensa que eu nunca pensei porque minha filha era assim... Por várias vezes eu pensei o que eu tinha feito para ela passar por tudo isso... 

Eu formava filhos de outros pais e de outra mães, eu via o amor deles e a felicidade dos pais... sabia que nunca teria isso.. Minha filha não teria isso.. era o meu sonho para ela... ser independente e eu poder terminar a minha vida tranquilo sabendo que ela ficaria bem...

Então 10 horas depois, toca o telefone de minha esposa... era o médico dizendo que a operação terminou e que ele estava feliz, pois tinha feito tudo que era possível fazer. Na hora, eu pensei que estava sendo premiado pela segunda vez.. que o Pai havia ouvido as minhas preces.. eu teria a estrelinha de volta novamente... novamente, ficamos esperando para irmos vê-la... desta vez seria na UTI. Chegamos por lá uma hora depois da operação ter terminado... lembro-me de chegar lá e ficar olhando para minha estrelinha...como era ela linda... Então, ela olhou para mim e me disse "Papai, Sorvete!!". Aquela frase me pegou de surpresa e comecei a rir... falei com a minha esposa que ela estava bem... Nem preciso falar da minha felicidade e a da minha esposa...

Desta vez, em uma semana, a estrelinha foi para casa. Teve uma recuperação mais rápida. Ela não poderia fazer nenhuma atividade até o fim do ano.. apenas avaliação  e recuperação da cirurgia.. foi então que tomei uma decisão. Ela jamais voltaria para aquela escola... não culpo a escola, mas culpo a nossa péssima esolha... Desta vez, falei com minha esposa, eu faria do meu jeito se e quando ela pudesse voltar às suas atividades. Assim, o tempo foi passando e ela foi liberada para voltar às suas atividades no início do outro ano.. eu tive que comprar uma cadeira de rodas.. tive que trocar até o carro.. Minha filha agora era cadeirante...

Passamos o natal muito felizes, pois minha família estava lá, inteira, sogro, sogra, meu pai, minha mãe, eu, estrelinha, miha esposa, meu sobrinhos, meus cunhados e cunhadas, enfim todos. Lembrei novamente da importância da família e da força que ela me dava e dá até hoje.

Quando da escolha de uma nova escola, fiz o que eu queria ter feito desde o início, procurei uma escola pública, a qual, eu sabia, era mais bem preparada para receber a minha estrelinha... tinha suporte de uma acompanhante especializada e a interação com os alunos era melhor. Consegui uma vaga, conversei com a Diretora e fiz uma doação de uma cadeira de rodas para a escola, pois as que eles tinham não era adequada para a minha estrelinha...

Com algus meses, minha intuição havia sido comprovada e minha estrelinha adorava ir para a escola.. todos os alunos da turminha dela gostavam dela. Ela estava feliz e eu tinha tirado um peso de minhas costas, pois tinha feito a coisa certa... 

Como era de se esperar, minha vida tinha ficado de cabeça para baixo, mas eu tinha que trabalhar, pois a vida não pára para ninguém.. Nesta fase, tive a sorte e a benção de ter pessoas muito boas e humanas perto de mim... muito obrigado aos meus amigos, meus colegas de trabalho, minha família, enfim a todos que me deram forças para continuar...

A vida é como um rio que flui de uma extremidade a outra, ora calmo, ora nervoso, o qual te mostra com suas lições, a refletir sobre a sua viagem, mas que obriga a todos a escolherem os caminhos que podem levar a águas calmas ou agitadas, dependendo do remo e das lições aprendidas.. Somos todos caminhantes neste rio de almas...

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