
A estrelinha começou o ano letivo na escola pública. Ficávamos um pouco apreensivos se daria certo. Minha querida esposa acompanhava atentamente o dia a dia da estrelinha. Quanto à operação, estávamos observando os ganhos da estrelinha e ela retornou a sua rotina de fisioterapia (normal e na piscina), terapia ocupacional e fonoaudióloga... tivemos que refazer toda a nossa rotina, mas era muito compensador ter o sorriso da estrelinha, sua alegria, sua força de vida e sua resiliência de volta. Ao longo do ano seguinte a operação, fomos trabalhando e observando a evolução da estrelinha.... foi um ano de muito aprendizado, muito trabalho e muita luz.
Eu estava, nesta fase, trabalhando em um órgão de pesquisa do estado, à noite em uma faculdade e, esporadicamente, dava aulas em outro estado em curso de pós-graduação nos fins de semana. Era muito estressante, mas precisava dos recursos para continuarmos a dar o que a estrelinha precisava. Muitas vezes, eu ficava triste, pois sentia que estava longe de minha estrelinha, mas era a minha missão de amor para ela... trabalhava para que ela pudesse viver com qualidade de vida.
No trabalho, passei por dificuldades, pois alguns funcionários do centro de pesquisa achavam que eu estava trabalhando em outro lugar ao invés de cuidar da estrelinha. Eu investi dinheiro em uma camionete para levar a cadeira de rodas da estrelinha, foi muito difícil. Levantaram falso testemunho sobre mim e as coisas começaram a ficar complicadas... começaram a dificultar meus horários no estado. Na época, fiquei arrasado, pois sempre fui uma pessoa honesta e trabalhadora. Nunca prejudiquei ninguém, pelo menos até onde eu sei.
Felizmente, eu tinha amigos queridos no trabalho e todos eles me ajudaram a passar por esta fase de uma maneira menos triste e depressiva. Nesta época e até hoje, eu vivia para a minha família. Nos fins de semana, em sua maior parte, trabalhava sábado e domingos nos afazeres de educador, quando não estava viajando para lecionar.
Tentava desesperadamente cobrir as minhas ausências com presentes para a estrelinha e minha mulher... em todo o lugar que eu ia, sempre encontrava alguma coisa que eu achava interessante para a estrelinha e para a minha querida esposa. Uma vez eu trouxe um urso de quase um metro de altura... nosso cachorro e a estrelinha fizeram a festa com ele... era muito legal!! Ao mesmo tempo, sentia falta de minha estrelinha e de minha querida esposa... não tinha muito o que fazer, pois tinha que ir em frente. Eu sabia que minha esposa tinha orgulho e admirava a minha dedicação, mas isso tinha um alto preço, o meu tempo com a estrelinha. Eu sempre pensei que seria recompensado por isso, dando a ela o milagre de ficar curada de sua condição na coluna. Eu amava e amo demais a minha filha e também minha querida esposa.
Então, um novo ano começa... lembro-me deste início de ano muito bem, pois estava na praia com minha família e meus pais... lembro-me de sentir um vazio na passagem do ano, como se uma tempestade estivesse por vim... meu coração estava ansioso... mal eu sabia o que estava por vir. Os primeiros meses foram na mesma rotina para a estrelinha, eu e minha esposa. Estávamos ficando preocupados, pois não víamos na estrelinha a melhora que esperávamos. Quase sempre, eu procurava não pensar nisso e focar na minha filosofia de uma dia de cada vez, sem pensar no futuro... isso me dava foco e desviava meus pensamentos mais escuros... principalmente, da frase mais terrível que vivenciei durante toda a minha vida..."E se...". Esta frase representa para mim o som do silêncio, a adaga que machuca, a vela que queima, aquilo que parte qualquer coração... traz o sentimento de arrependimento e de busca de entendimento/solução para o que não temos resposta.. A vida é feita para ser vivida... o caminho que é traçado depende de nosso livre arbítrio ou escolhas e temos que arcar com as consequências, sempre sabendo que buscamos fazer o melhor, dentro da experiência e conhecimento que temos... obviamente, já me questionei durante toda a minha vida se eu deveria ter ido para a direita ao invés da esquerda, se eu tivesse aberto a porta de vidro ao invés da de madeira... a vida é feita unicamente de escolhas que formam a luz ou a escuridão de nossas almas. O importante é que devemos sempre fazer aquilo que o nosso coração fala para nós... sempre segui meu coração e minha intuição em relação às coisas, bebendo da fonte da sabedoria dos mais velhos.. Ganhei, perdi, fiquei feliz, fiquei triste, sofri, vivi... enfim, segui o fluxo da vida.