31 May
Entre 42 e 43 anos - A Terceira Lição - Parte II

Como meu coração havia previsto, alguma coisa muito pesada e triste iria acontecer. Quase no meio do ano, em um sábado, fomos ao aniversário de minha tia mais nova e minha madrinha. Foi uma festa memorável. Minha mãe estava muito feliz... fomos eu, minha esposa, a estrelinha, meu pai e minha mãe juntos. Ao longo da festa, vi minha mãe conversar com todo mundo sempre com aquele sorriso e alegria que lhe eram características.. Comeu, bebeu, conversou, riu... enfim, estava radiante. Por causa da estrelinha, não podíamos ficar até muito tarde... mesmo assim, saímos de lá depois da meia noite. Entramos na camionete e meu pai e minha mãe foram atrás com a estrelinha. Eles brincaram o tempo todo... e chegamos na casa dos meus pais, a casa em que eu nasci e morei durante vários anos de minha vida. Lembro-me que meu pai subiu para a portaria do prédio e minha mãe ficou na rua conosco... fiquei preocupado por causa da segurança e pedi para que ela entrasse... lembro até hoje ela me dando um beijo e indo para a entrada do prédio... Nunca esqueci esta imagem em minha mente, até hoje... Arranquei a camionete e fomos para casa.

Chegando lá, colocamos a estrelinha na cama e fomos dormir... Por volta das 04:00 horas da manhã, o telefone tocou... assustado levantei e atendi... era meu pai que em sua dor disse-me o seguinte: "Meu filho, sua mãe morreu... preciso de você aqui...". Minha esposa estava ouvindo e levantou assustada... eu e ela incrédulos, custamos a entender o que tinha acontecido... quando consegui entender tudo, fiquei anestesiado, como se tivesse sonhando... ligamos para minha sogra para ela ficar com a estrelinha e fomos para a casa dos meus pais..

Quando cheguei lá, vi minha querida mãe deitada em um sofá coberta... estava fria.. não estava mais lá... vi o meu pai desconsolado me dizendo que era para eu resolver as questões legais e do enterro apenas afirmando que não queria que minha mãe fosse para a medicina legal... tinha medo de roubarem os órgãos da minha mãe. Eu estava muito arrasado.. fiquei meio sem chão, meio sem lugar... A casa dos meus pais parecia mais triste, tinha perdido a luz... vi a boneca da minnie que minha mãe tinha trazido para a estrelinha... lembrei-me das vezes em que minha querida mãe ficava com ela...

Acima de tudo, estava preocupado com meu pai... a geração dele foi criada com a mulher/esposa sendo a dona de casa que cuidava dele.. ele vivia para ela e ela para ele.. Não tinha menor ideia de como ele iria reagir. Chegou a medicina legal e chamei a funerária... fui resolver as questões necessárias para o funeral de minha mãe e depois tive que escolher o caixão... que momento difícil... então veio o funeral.. lembro-me que meu coração estava pequeno, triste e com remorso... fiquei pensando em tudo que minha mãe queria ter feito e não fez... ela queria que eu levasse a estrelinha para passear na terra de meus irmãos e reunir a família, ela queria ir em Israel, viajar, enfim viver mais... não deu tempo e eu sentia que poderia fazer mais...

Meu pai chorava muito, assim como toda a família...minha mãe era a irmã de referência das outras... minha madrinha estava desconsolada, meu padrinho parecia que não acreditava... parecia que havia tido uma guerra e só tinha sobrado uma terra devastada... Em um determinado momento, antes da celebração religiosa, cheguei perto do caixão em que ela estava e falei "Perdão, minha mãe! Eu poderia ter sido um filho melhor!! Desculpe por tudo!! Espero que você possa ter orgulho de mim algum dia!! Logo, toda a minha família me tirou dali e me falaram que eu estava enganado... que sempre fui um bom filho. Eu fui o filho que sempre esteve ao lado dela.

Independente de qualquer opinião, eu sentia um remorso muito grande por não ter proporcionado à minha mãe as alegrias e sonhos que ela queria viver... eu jurei que isso jamais aconteceria de novo. Um tsunami passava novamente na minha vida... fiquei pensando como eu iria cuidar de meu pai... fiquei com medo de perdê-lo também, pois não sabia se ele aguentaria viver sem ela. Veio o enterro... até então parecia um pesadelo... mas quando o caixão foi colocado no mausoléu, percebi que aquilo realmente estava acontecendo...Por fora, estava forte e parecia uma rocha, por dentro eu estava destroçado e com medo do que viria pela frente. Só sabia que agora meu pai precisaria de mim mais do que nunca.

Levei o meu pai para minha casa e o acolhemos com muito amor e carinho. Disse a minha esposa que nossa vida iria mudar e que deveríamos procurar uma outra casa para morar... teríamos que cuidar de meu pai, pois sempre fui "filho único" e sempre cuidei deles.. sempre tive orgulho disso. Assim, a vida me deu a terceira lição... a vida é um rio cheio de almas, mas existem almas que lhe são caras e não são eternas... devemos honrar estas almas dando a elas o amor, carinho, atenção, respeito e dignidade... esta é a verdade da caridade... precisamos reconhecer as almas por seu coração e amor... poderia ter sido mais cuidadoso. Ganhei, perdi, fiquei feliz, fiquei triste, sofri, vivi... enfim, segui o fluxo da vida.

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