
Depois da morte de minha amada mãe, meu pai foi morara comigo. No princípio, meu irmão mais velho ficou alguns meses para ajudar na transição, visto as questões legais e afetivas que teríamos pela frente. Para minha surpresa, nos primeiros dias, parecia que minha mãe havia viajado pelo mundo desbravando as suas belezas e que voltaria a qualquer momento... meu pai ainda não tinha visto a triste realidade.
A ausência de minha mãe havia deixado um deserto no qual antes era um oásis... o amor dos dois era muito bonito de se ver... 54 anos juntos... flizes, brigando, sonhando, lutando, deixando exemplos, mostrando o que eles eram na essência... pessoas do bem, queridas e amadas por muitos... faziam a diferença para quem os conhecia.. impressionante, mas só percebemos isso depois que o espaço fica vazio. Depois da morte da minha mãe, eu pude perceber o que ela significava para toda a família... era ponto de inflexão para as irmãs, a alma que acalma e que iluminava a escuridão.
Para meu pai, ela era a vida dele... e, para minha mãe, ele era a vida dela. Eram seres humanos, riam, chingavam, brigavam, mas estavam sempre juntos. No dia que ela se foi, meu coração ficou apreensivo, pois não sabia como meu pai sobreviveria sem ela.
Passaram-se um mês e meio, a realidade começou a aparecer, ali, dura e inegável, minha mãe tinha ido... começaram os sinais... duas vezes para o hospital com arritmia cardíaca, veio a depressão. Começa a aparecer sintomas de paranóia com meu irmão mais velho. Levei o meu querido pai, guerreiro e companheiro de toda minha vida, para minha casa..eu ainda não tinha conseguido resolver o problema de uma nova casa para acomodar a todos... minha estrelinha em sua cadeira de rodas e meu pai destroçado... Ele ficava em um quarto adaptado dormindo em sofá cama.
Quando começaram as intercorrências com meu pai, procuramos ajuda com um psiquiatra para aplacar a dor de seu coração e os desdobramentos disso. Além disso, eu continuava procurando um novo ninho para a família, tinha que ser maior e mais confortável para a estrelinha e meu querido pai. De tanto procurar, havíamos desistido de encontrar alguma coisa, visto que era difícil agradar a meu pai e a minha querida esposa. No último minuto, sem muita pretensão, fomos olhar um último apartamento, e, por incrível que pareça, ele foi escolhido. Falei com meu pai que este apartamento era muito caro e que eu não teria condição para comprá-lo... ele me disse: Meu fliho, não se preocupe, vou morar com você e a estrelinha precisa de um lugar melhor.. o lugar é este!!
Compramos um lindo apartamento, grande, espaçoso, no qual eu poderia montar um belo quarto para meu pai e para a estrelinha... poderíamos montar o apartamento para que atendesse a necessidade de todos. Demos o nosso apartamento, o que recebi de herança da minha mãe, as economias que eu tinha e meu pai entrou com uma boa parte... ainda fiquei devendo um financiamento...Bem, na verdade, foi a melhor coisa que fizemos. Quando mudamos para lá, ainda faltavam alguns armários, mas acomodamos a todos muito bem. Eu fiquei estremanente feliz, pois pude acomodar a todos que eu amava e ainda amo de modo a ver a felicidade de todos.
Como eu agradeço meu pai por isso.. pude ter o privilégio de cuidar da estrelinha e dele! Sou grato por isso, muito grato! Não tenho palavras para expressar o quão foi maravilhoso eu poder tomar conta dos dois, apesar de todos as pedras e percauços no caminho. Paralelamente a isso, a estrelinha ficou doente quase no final do ano, pneumonia, fato corriqueiro para a condição dela... 15 dias no hospital. Além disso, meu pai estava cada vez mais depressivo e perdendo peso... fazia de tudo para ele alimentar direito.
Veio o novo ano e as coisas ficaram um pouco mais difíceis. Papai não queria comer de jeito nenhum. Tinha dia que eu tinha que imobilizá-lo e minha querida esposa apertar o nariz dele para que ele abrisse a boca para comer... eu estava cada vez mais triste e preocupado. A responsabildiade sobre a sua saúde e sua vida era minha... não tinha ninguém para partilhar esta responsabilidade... comecei a questionar se eu era apto para cuidar dele...
Então veio mais problemas... a estrelinha ficou doente novamente... meu pai estava muito fraco, estava evacuando à noite na cama... eu levantava pelo menos duas vezes por noite para dar banho nele... eu ficava muito triste e sem saber o que fazer.. Fiquei uma semana sem dormir, cuidando dele e da estrelinha... tinha 03 empregos... estava exausto... Foi quando minha amada esposa me disse que se continuássemos daquele jeito os dois morreriam.. eu tinha que fazer alguma coisa. Que situação desesperadora... eu tinha calafrios e minha alma estava em chamas. Tinha que decidir... eu teria que recorrer a ajuda externa.. não podia ser a estrelinha, pois a sua condição era muito delicada e o tratamento dela era muito específico.
Foi então que tomei um das decisões mais difíceis da minha vida..