23 Oct
A Difícil Arte da Leveza de Ser Quem Somos

Neste últmos dias, tenho refletido bastante sobre minha vida, minhas escolhas, meus amores, minhas lutas e minhas derrotas. A partir da metade de minhas vida, entrei em um círculo de entendimento de que devemos aproveitar e buscar ser o melhor a cada instante, posivelmente derivado de minha experiência de quase morte quando dos meus 21 anos.

Até hoje, lembro-me do que senti e aprendi... somos apenas passageiros em uma viagem na qual não sabemos o destino e o fim. Apenas podemos avaliar o caminho, escolher as melhores rotas a cada curva, se desviar das pedras e buracos, e buscar ser um passageiro melhor a cada oportunidade de parada e reflexão.

Ser o que somos é um processo bem complexo, o qual depende das nossas escolhas e aprendizados, únicos para cada um, e das pessoas com quem nos relacionamos e do ambiente em que vivemos. Em minha juventude, tive um processo de aprendizagem bem doloroso, visto minha personalidade acanhada. Nunca fui um ser que chamasse muita atenção, apenas para quem me conhecia de perto. Este fato deriva de minha crença de vida que as pessoas não devem fazer ou tomar atitudes para serem reconhecidas e sim para ajudarem.

No trabalho e na vida, sempre acreditei em fazer o que achava certo e digno, mesmo que as pessoas não conseguissem ver isso. Obviamente, isto tem um preço, às vezes alto, pois, na maioria das vezes, as pessoas não conseguem ver. O que se insinua é mais facilmente visto e o que se faz sem muito alarde permanece na sombra até ser descoberto.

Somos seres sociais, dependentes da troca, da interação e do movimento. Este balé incansável de idas e vindas nos molda e nos faz navegar corrigindo o curso, a cada momento, alicerçado em alegrias e tristezas, acertos e erros, luz e trevas. Neste jogo infinito de incontáveis resultados, formamos o que somos à luz da portas que abrimos e fechamos. Montamos um filme no qual, como diretores e atores, escolhemos quem serão os atores principais e coadjuvantes na trama, indo e vindo na história como ondas em um mar revolto. Neste filme, não há como controlar as marés e consequentemente as ondas, apenas podemos desenvolver o que somos, aprimorar a direção e a atuação, almejando, a cada instante, sermos mehores.

Diante disso, o caminho que nos leva a ser o que somos vai sendo trilhado e a construção de cada pequeno detalhe flui com os encontros e desencontros com o amor, a paz, a verdade, a justiça e a compaixão. Ao se refletir sobre cada detalhe e seguir em frente, somos expostos à realidade do coletivo e das imposições sempre renovadas da sociedade, em contraponto às necessidades de cada um.

Neste choque de entre o eu e o nós, vão se moldando as máscaras e se construindo as barreiras, ao mesmo tempo em que se constrói as verdades de cada ser, na maioria da vezes escondidas dos olhares desatentos. Nos dias atuais, enfrentar a tempestade da vida em sociedade de peito aberto geralmente leva a um descompasso cada vez maior na leveza de ser o que somos.

Em um mundo em que ser o que se espera nos encaminha para a clonagem de virtudes, ser o que se quer acarreta em imensos choques de realidade e de adaptação para suportar a estrada e o caminho. Ser o que se espera e ser o que se quer, na vida em sociedade, são facetas que vão se moldando na moeda da vida, buscando um lugar de equilíbrio entre eles.

Esta tarefa hercúlea de buscar o equilíbrio vai nos levando a ter mais leveza e conforto com aquilo que somos e identificarmos até onde podemos ser em face a realidade que vivemos.

Todos temos direitos, mas temos deveres. Todos temos vontades, mas temos limites. Todos temos sonhos, mas temos o coletivo. Todos  buscam o amor e a paz, mas temos a intolerância e o egoísmo.  Todos buscam o ter, mas temos a ganância. Todos deveriam ser e respeitar, mas temos o eu e o meu. Todos temos uma face, mas temos a aparência e a superficialidade. Todos queremos compaixão e amor, mas temos desconfiança e descrença.

A difícil arte da leveza de ser o que somos está diretamente ligada na capacidade de nos vermos e de vermos o outro, vivendo o coletivo, respeitando cada verdade e escolhendo aquela que mais se adequa ao ser único que cada um é.

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