19 Apr
Ser quem somos ou ser quem eles querem que sejamos?

Nos últimos tempos, após me ver vagando sobre terra devastada, tenho buscado entender o mundo que me cerca, suas especificidades e seus desafios. Nesta fase de caminhada, tenho observado a bolha em que eu vivia, uma camada de luz própria e de crescimento familiar, a qual se rompeu de maneira inesperada, me trazendo para uma realidade parecida com os mistérios de Ágatha Christie. Mas, como assim?

Quando eu era solteiro, a muitos anos atrás, se buscava uma pessoa para se dividir a vida, construir uma família e compartilhar toda a trajetória. Como diria o padre no altar "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença", uma frase que parece clichê, mas que descreve fielmente um relacionamento a dois calcado no querer estar junto, no sentir que ambos representam a paz e a serenidade para o conjunto. Estar junto, mesmo nas maiores dificuldades, passa força e determinação, amor e carinho, tensões e discussões. Obviamente, que quando se decide pelo casamento ou mais recentemente pelo ajuntamento, aqui sem nenhum tipo de consideração ou reprimenda, esta escolha, principalmente nos dias atuais, deve ser muito bem refletida e pensada, avaliando-se os sentimentos e as consequências desta decisão, pois envolve sentimentos e sonhos muito profundos.

A união de duas pessoas é uma construção diária de pesos e contrapesos, na qual ambos saem ganhando em favor do conjunto. Não há espaço para o meu e o seu, mas para o nosso... o nosso bem-estar, o nosso olhar para a vida, o nosso olhar para um caminho compartilhado no qual o peso maior é o desejo de se estar junto que pode ser traduzido em duas palavras muito significativas: amor (físico, mental e espiritual) e caridade (compreensão e humildade).

Pois bem, tive uma união de 30 anos, nos quais vivi situações impensadas, de muito stress e muito sofrimento, mas também de muitas alegrias e conquistas. Já tive passagens de minha vida que parecia que minha união estava fadada ao fracasso, não por falta de amor, mas pelas situações vividas pelo caminho que testavam sempre o que sentíamos um pelo outro. Mas, de maneira às vezes incrível e com a ajuda do criador, estes percalços do caminho iam se dissipando e a vida continuava, e por incrível que pareça, o amor e a caridade floresciam ainda mais. Entretanto, para tudo na vida, existe limites que não podem ser ultrapassados, mesmo com amor e caridade, a visão de vida de cada um. A maneira como vemos a vida e o porquê dela é fundamental para entender como cada alma reage às perdas e ganhos da vida. Esta questão que pode parecer simples, mas me custou a vida da pessoa que mais amava no mundo. A maneira como reagimos e entendemos o que acontece pode te fazer uma fortaleza ou um mar revolto em uma tempestade infinita. Na fortaleza, você assimila e segue em frente com toda a dificuldade inerente a isso, buscando a vida. No mar revolto em uma tempestade infinita, você não consegue assimilar o ocorrido e fica preso em um looping infinito de tristezas e culpas, no qual se busca incessantemente uma válvula de escape para se permitir vislumbres de algum tipo de felicidade.

Vivenciei estas duas "escolhas", comigo e com minha companheira. Na prática, não são "escolhas", mas são ações que derivam da maneira como vemos a vida e o porquê dela (propósito). Se temos um propósito na vida, o qual deve envolver o nós e o eu, as dificuldades, mesmo que hercúleas, tendem a ser superadas com muito esforço e fé. Quando o propósito não existe, a vida perde o sabor, fica amarga e nos leva a padrões de desespero e de busca por algum salva vidas temporário, o qual nos retira momentaneamente da dor e do sofrimento de vagar sem rumo. 

Bem, o que isso tem a ver com o título deste texto? A resposta é tudo. Somos seres, por definição, sociais. Precisamos de convivência, de contato, de experiências, de quedas, de superações, de tristeza, de alegria, de dor, de decepções e de vitórias. Isso nos faz crescer e sermos melhores, nos faz buscar o melhor de nós mesmos no intuito de alcançar a famosa felicidade. Para buscarmos uma união duradoura com outra pessoa, precisamos amadurecer como seres humanos, entendendo que não somos a última bolacha do pacote e que precisamos olhar sempre para o outro buscando equilíbrio entre o eu e o nós.

Diante disso, temos uma realidade extremamente desafiadora, na qual as gerações mais recentes, geralmente, não conseguem aceitar a perda e o fracasso, pois estão acostumados a resolver tudo pelo ambiente virtual, pelas redes sociais e pela cultura do ter e do ser. Valoriza-se hoje o exterior, a exposição virtual, a superficialidade, o não compromisso e a não responsabilidade. É mais fácil ficar na superficialidade, pois não há risco e existe a possibilidade do prazer instantâneo, e, dependendo do modus operandi, regular. 

Entretanto, este modus operandi apresenta, como era de se esperar, uma saturação com o passar do tempo, pois não consegue preencher eternamente as necessidades humanas. Em certo ponto, sentimos que precisamos de alguém com quem compartilhar a vida, com quem dividir a mente, o espaço e o coração. 

Mas, como fazemos isso? Como conquistamos este alguém, se o que temos hoje é um imediatismo, uma exposição e um querer material valorizado ao extremo numa perspectiva da valorização de vícios, de aparências e de libidos?  O que se observa hoje em dia, de maneira comum, é a busca por prazer instantâneo alicerçado no consumo de álcool, no qual se espera a satisfação física e, como um milagre e lá no fundo da alma, talvez encontrar alguém diferente nesta realidade.

Então, fica a pergunta que é título deste texto: Ser o que somos ou ser o que querem que sejamos? Aceitar o nosso âmago de seres sociais e buscar encontrar a felicidade no crescimento e no aprendizado, que é considerado hoje o caminho mais difícil, ou se manter "seguro" em relacionamentos fluidos e superficiais, calcados em prazer instantâneo alicerçados na crença da satisfação física e, no milagre de talvez encontrar alguém diferente nesta realidade.

Apenas para a reflexão, todo o ser humano está fadado a se extinguir em algum momento. O que realmente levamos conosco até mesmo na morte são os sentimentos, a caridade e o amor que sentimos. Todo o resto material fica. O que plantamos ao longo da vida, colhemos. O que somos é o que temos de mais precioso e que ninguém deveria nos tirar, mas que, infelizmente, podemos perder diante da realidade e da sociedade, se não ficarmos atentos aos valores que realmente importam na vida: convivência, felicidade, amor e caridade. 

Tire um tempo para jantar e conversar em família, para discutir e conversar com os amigos e pessoas mais queridas, para entender o mundo que te cerca... esqueça um pouco as tecnologias virtuais e avalie o impacto que isso causa naquilo que somos e que pensamos.

Procure alguém que realmente valha a pena, que valorize você como pessoa e que acredite que um mais um ser torna “nós” e não um conjunto de “eus”. 

Seja humano e acima de tudo feliz!!

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