Era uma vez, uma família composta de Pai, Mãe e três filhos. Durante toda a vida, o terceiro filho mais sentimental optou por ficar com os pais, enquanto os dois mais velhos optaram por voar e dar asas aos seus sonhos. Como tudo na vida, isso tinha um preço. Não conviver com os pais e com o irmão mais novo.
Por quase 20 anos, a família não se reuniu. O filho mais novo, considerado a ovelha negra, apesar de ter que voar para outra pastagem, sempre esteve ao lado de seus pais. E vieram as tempestades... doenças, dificuldades, tristezas, alegrias, vitórias, tanto do filho como dos pais. Sempre estiveram juntos.
Enquanto tudo isso fluia, os dois mais velhos seguiam o fluxo de sua vida, vindo e voltando de tempos em tempos para o seu ninho. Os pais também de tempos em tempos indo até eles e voltando para o ninho.
Independente de qualquer distância, saudade ou adversidade, eles tinham um ao outro, sempre se ajudando, quando possível. Todos se amavam, apesar das diferenças e mágoas que existem em qualquer família. E o tempo fluiu, as almas envelheceram, as diferenças de opinião se acentuaram e as realidades ficaram muito distantes.
O fliho mais novo sempre acreditou que a família era tudo. Quando da morte da mãe, uma dor dilacerante o assombrou, pois sentiu que poderia ter feito mais para que a vida de sua mãe pudesse ter sido mais prazerosa e feliz. Jurou para si mesmo que nunca mais sentiria isso. Tomou conta do pai, que havia ficado doente por causa da morte da mãe, da melhor maneira que pode, passou por momentos de angústia, medo, desespero, mas também alegrias e vitórias. Foi uma linda viagem, viu o pai ficar doente, recuperar e decidir viver plenamente a sua vida.
Mas o destino quis que o pai terminasse a sua jornada inesperadamente. O filho mais novo sentiu seu chão se abrir, sofreu, chorou, mas estava certo que havia feito tudo que podia pelo Pai. Até hoje, o filho mais novo lembra suas intensas conversas com o pai, seus conselhos sábios e seu carinho constante.
Mas, infelizmente, a história não termina com as lembranças de um flho em relação ao seu pai e sua mãe. Os dois irmãos mais velhos, em seus novos ninhos, se mantiveram a distância, nada contribuiram, nada mudaram, nada fizeram, esperando o espólio de uma vida de trabalho de seus pais.
Quando do espólio, fizeram-se acordos para a sua divisão, apenas matéria, afinal todos queriam saquear o espólio... menos o mais novo, o qual ficou com a incumbência de arrar a terra e manter a boa colheita. Por várias vezes, o peso da colheita era grande para o irmão mais novo, mas ele não importava, pois havia prometido ao pai cuidar de tudo até que a colheita fosse dividida. Perseverou, se desgastou, ficou doente, seguiu em frente. Perdeu sua mãe, perdeu sua filha e o pai, passou por diversas adversidades, sempre procurando manter a família unida. Logicamente, erros foram cometidos por inexperiência, inocência e ingenuidade. Pensou que o que ele fazia seria reconhecido... tentou dar o mínimo de trabalho para os irmãos mais velhos durante toda a espera da colheita. Pagou parte de sua dívida com os ajudantes, pois ninguém se põe ao sol na labuta, sem receber o pão e o sustento da família.
Eis que chegou a hora da colheita ser finalmente dividida, a conta dos ajudantes do irmão mais novo chegou, a tempestade se instalou. O irmão mais novo, que em vários momentos, queria desistir da incumbência, teve que tomar decisões sem nenhum apoio ou seuqer um sopro de experiência, foi acusado de leniência com os ajudantes, descofianças com o custo da colheita, virou um vigarista, mentiroso, um pária. O irmão mais velho sem consciência, acusou os ajudantes de esperteza e de incompetência, de tanto se achar imponente perdeu a chance da indulgência dos ajudantes. De tanto se preocupar com a união da família e não querer brigar, o irmão mais novo ofereceu uma parte de sua colheita para pagar os ajudantes, mas os ajudantes, necessitados, queriam o dinheiro da colheita, recusando o que foi dado de bom grado pelo irmão mais novo.
E no último capítulo dessa história, os ajudantes procuraram a justiça por aquilo que lhe era devido.. a justiça então celere se pôs a fazer os irmãos mais velhos a contribuir com a paga dos ajudantes. Mais uma vez, veio a cobrança sobre o irmão mais novo, o responsável pela incumbência, o cuidador de seus pais, o vigarista de seus irmãos. Infelizmente, o irmão mais novo cujo o peso da incumbência carregou, foi relegado ao esquecimento pelos irmãos. Já sem família chorou, o coração se entristeceu, a tristeza se abateu. Assim, pensa o irmão mais novo: "O justo faz a terra, dá de comer e não espera retribuição, pois digno é aquele que vive conforme o seu coração. A sua crença é a verdade, logo a família é a empreitada da qual não se espera nada." A resiliência do ser humano está em acreditar que a cada sol que se põe a esperança surge, o amor se renova, a caridade aumenta, pois queremos sempre ser seres humanos melhores.